Sempre foi comum dizer-se que ‘Tempo é Dinheiro’!?. A sabedoria popular tem
a característica de ser oportuna, precisa e pertinente. Com apenas três
palavras, este velho ditado popular pretende evidenciar que é necessário
rentabilizarmos o nosso tempo. Atualmente, para além do tempo, há a necessidade
de rentabilizarmos o nosso espaço. Provavelmente, fará sentido começar a dizer-se
que ‘Espaço é Dinheiro’!? ou, se optarmos por um dos mecanismos de gestão mais conhecidos,
a fusão, poderíamos reinventar o
velho ditado e passar a afirmar que ‘Tempo e Espaço são Dinheiro’!?
* serve esta pequena introdução para vos falar sobre os ‘os nossos passeios’ *

Refiro-me aos passeios que temos em Portugal, aqueles que
fazem parte da nossa via pública e que existem em todas as nossas cidades,
vilas e aldeias. Carinhosamente, vou batizá-los por ‘os nossos passeios’. Toda este espaço junto, todos esses metros
quadrados somados, constituem uma área com uma dimensão a perder de vista, mas que,
no essencial, não serve para quase-nada!!? É verdade, quase ninguém os usa
porque não foram feitos para serem usados pelas pessoas. Um destes dias estava
a ver televisão e a minha atenção despertou para um anuncio que dizia, entre
outras coisas, que: ‘podem tirar-me o fado, podem tirar-me a visão, podem
tirar-me a calçada, podem até tirar-me a fala, mas não me tirem o azeite…’ Só
depois percebi, que não era verdade, de facto ninguém queria remover a velha
calçada dos passeios, muito pelo contrário, tratava-se apenas de uma técnica de
comunicação que apelava à nostalgia pela positiva.
A tradição da calçada de ‘os nossos passeios’ é, segundo alguns, mais uma das montras vivas representativas da nossa cultura
centenária e que devemos manter, no mínimo, por mais mil anos! Eu penso
exactamente o contrário. Eu digo com convicção, que ‘os nossos passeios’ são um contribuinte líquido para o aumento da
falta de acessibilidades. Excluem quase tudo e quase todos. Diariamente, nos
locais mais diversos, todos nós vemos pessoas a caminhar à beira de ‘os nossos passeios’ ou, dito de outra forma, pela beira da estrada. É
verdade, as pessoas escolhem, naturalmente, os caminhos que consideram mais
adaptados à sua locomoção. Infelizmente, ‘os nossos passeios’ não têm essa característica fundamental. O problema complica-se ainda mais
quando pensamos nos cidadãos com mobilidade reduzida, nos pais com os carrinhos
de bebés, nas pessoas mais idosas ou mesmo nas mulheres portuguesas que
arrisquem o uso de sapatos de salto alto.

Por isso os vemos todos os dias a
caminhar na estrada, na direcção dos automobilistas, colocando a sua vida, e a
dos outros, em risco. Os deficientes motores que necessitam de se deslocar em
cadeiras de rodas, acabam por ser obrigados a converter-se em condutores de
ligeiros sem matrícula, muito provavelmente, sem carta para o efeito. Não me
lembro de encontrar no código da estrada, normas que contemplem esta
evidência. Afinal existem mais duas grandes categorias de veículos para além
dos pesados e dos ligeiros, a saber, as cadeiras de rodas com motor e as
cadeiras de rodas sem motor!
Mesmo assim, quando ‘os nossos passeios’ têm a dimensão adequada, coisa rara, acabamos por encontrar de quase tudo
a bloqueá-los: árvores, paragens de autocarro, ecopontos, obras, cabines
telefónicas, postes de eletricidade, sinais de trânsito, etc. No enquadramento
dos nossos compromissos comunitários enquanto país que deve ter em atenção a
inclusão de todos os cidadãos europeus, tudo isto parece irreal,
mas por aqui ninguém quer saber. Propositadamente, não me referi aos carros
estacionados em cima dos passeios. Esse é um problema que depende apenas do
nosso civismo ou da falta dele e, somos nós enquanto cidadãos, que o temos de
resolver. Contudo, acredito seriamente, que as Policias e as Entidades Fiscalizadoras
poderiam ajudar, se é que não há nenhum exagero neste tipo de pedido! Ainda
assim, e no meio de tantos obstáculos, acaba por ser a velha e desadequada
‘calçada portuguesa’ o maior dos inimigos.
Esta calçada em tudo o que são ‘os nossos passeios’, é um contratempo desnecessário e dispendioso. Surgiu no século XIX e é ainda amplamente usada no calçamento em quase todas as cidades. Eu diria que é cada vez mais atual, muito embora já estejamos no século XXI. É um piso geralmente desnivelado, que se baseia em pedras de formato irregular, geralmente de calcário e por vezes pontiagudas, intervaladas com buracos de maior ou menor dimensão. Desnivelado porque na grande maioria dos casos nem se dão ao trabalho de nivelar o terreno e, com muitos buracos, porque também não se dão ao trabalho de os compactar devidamente. É, certamente, um piso excelente para algumas modalidades radicais, mas fica muito aquém de oferecer a segurança e o conforto necessários a quem se atreva a pisá-los sem usar equipamento adequado.
As cadeiras de rodas só poderiam
circular nos ‘os nossos passeios’ se os pneus fossem idênticos aos dos tratores uma vez que não existem,
ou não conheço, outro tipo de equipamento que seja viável para o efeito. Mas,
alguns, são bonitos. Formam padrões decorativos pelo contraste entre as pedras
de distintas cores, normalmente, o branco, o preto, o marrom e o vermelho. Bonitos,
mas inúteis. Não sou nem tenho de ser contra este tipo de Decoração, apenas considero que devem coexistir alternativas ou
então, fazê-lo apenas nas grandes praças e nunca nos passeios. Aí sim, podem
fazer-se grandes ‘decorações’ para nos elevar o ego.

Quem tem responsabilidades
sobre o ordenamento/desenvolvimento das cidades e dos seus equipamentos, devia olhar para os outros países da Europa e perceber porque e como é que
as pessoas usam, de facto, os passeios. É fácil, até pela televisão se percebe
que os passeios na maioria dos países da comunidade não são como ‘os nossos passeios’, são Passeios
a sério. As pessoas usam-nos das mais variadas formas: caminhando, de
bicicleta, de patins, etc e os que têm mobilidade reduzida não encontram
obstáculos. Criamos tantas comissões neste país que, me atrevo a sugerir, que
criem a Comissão de Análise para os Passeios do Sec. XXI. O trabalho a
desenvolver é simples: basta viajar, olhar com atenção e tirar notas. Temos que
repensar os Passeios para evitar os
erros cometidos e que continuamos a cometer. Vila Nova de Gaia já o começou a
fazer. Qualquer um pode deslocar-se pelo passeio marítimo sem qualquer tipo
restrições. Na cidade, a maior parte dos passeios são acessíveis e a sensação é
boa.

Não uso o ‘Nunca’ nem o ‘Para Sempre’ mas tenho quase a certeza que, tal
como não consigo deslocar-me na minha cadeira de rodas em sítios como o Parque
das Nações, a nova Ribeira das Naus ou na nova Marina de Lagos, também já não
será no meu tempo de vida que vou usar a maioria de ‘os nossos passeios’.
Lamento e sinto falta.
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